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16 de outubro de 2020

Quarteto de Cordas da Cidade retorna ao palco após dez meses para um concerto ao vivo pela internet, com estreia mundial de obra de Santoro

Grupo faz sua primeira aparição ao vivo em 2020, ano em que celebra 85 anos, após ter o concerto de abertura da Temporada cancelado pela  pandemia; seguindo todos os protocolos de segurança e com transmissão pelo YouTube do Municipal, a apresentação pelo projeto Fortíssimo ocorre neste sábado, 24 de outubro, e o público vai ouvir, no conforto de casa, peça de Alberto Nepomuceno e uma estreia mundial de Claudio Santoro

 

Em 2020, o Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, criado por Mário de Andrade e ligado ao Theatro Municipal, comemora 85 anos de história. A Temporada deste ano do grupo formado pelos violinistas Betina Stegmann e Nelson Rios, o violista Marcelo Jaffé e o violoncelista Rafael Cesario estava toda preparada e confirmada. Seriam diversos concertos na Sala do Conservatório, na Praça das Artes, onde ensaiam e se apresentam ao público.

No programa de estreia, em março, eles fariam um passeio pelo Piano Brasileiro com obras de Radamés Gnattali, Pixinguinha, Gilberto Gil, Amélia Brandão Nery e Hercules Gomes, que também seria o solista convidado, até a programação do Theatro Municipal ser suspensa, por conta da pandemia causada pelo novo coronavírus, a seis dias do concerto.

De lá para cá, o grupo continuou trabalhando de casa e produzindo conteúdos gravados para as redes sociais do Municipal, como as séries da integral do Quarteto nº 3, de Claudio Santoro e do Quarteto nº 2, de Guerra Peixe, em episódios comentados, e ainda o curso A História do Quarteto de Cordas, com Marcelo Jaffé, que aborda este tipo de grupo de câmara composto por dois violinos, uma viola e um violoncelo. Neste período, a violinista Betina Stegmann também integrou o projeto Dançando Palavras, do Balé da Cidade de São Paulo, que uniu dança e poesia em quatro episódios com a participação de escritores da periferia em vídeos que abordam temas como racismo, imigração e identidade de gênero.

Eis que agora, em outubro, como parte de uma retomada gradual dos corpos artísticos ao Theatro Municipal para ensaios e concertos via streaming pelo projeto Fortíssimo, ainda sem a presença de público e seguindo todos os protocolos de segurança, o grupo de cordas se apresenta ao vivo, direto da Sala do Conservatório.

Neste sábado (24/10), às 20h, o Quarteto de Cordas da Cidade interpreta um repertório 100% brasileiro, começando por uma estreia mundial. A peça Quarteto nº 5, de Claudio Santoro (1919-1989), que desde o ano passado a música de concerto tem sido envolta às lembranças do centenário de nascimento e à genialidade do compositor amazonense. A descoberta desta obra inédita começa pela equipe de acervo do Theatro Municipal de São Paulo que, durante a pandemia, com todos trabalhando de suas casas, se debruçou a reorganizar os manuscritos de música brasileira por linha editorial, cujo volume é riquíssimo. São inúmeras peças do Quarteto de Cordas que, nestes 85 anos, estreou diversas encomendas ou mesmo interpretou outras tantas obras para quarteto. Entre as peças encontradas estavam os Quartetos 3, 4 e 6 de Santoro. Faltava o número 5.

Em contato com a família do compositor, o cravista Alessandro Santoro, filho de Claudio, informou que o Quarteto nº 5 não chegou a ser concluído. Com apenas dois movimentos, mas uma obra completa com começo, meio e fim, o manuscrito da família foi compartilhado com o Municipal e agora o Quarteto de Cordas da Cidade faz a sua estreia mundial. “Essa obra foi composta no fim da década de 1950, quando o Santoro estava na Bulgária”, destaca Marcelo Jaffé. Mais uma raridade deste músico que deixou um legado entre sinfonias, óperas e centenas de obras de embates estéticos e políticos.

Para completar o repertório do dia 24, tem o Quarteto nº 3 “Brasileiro” do compositor, regente e organista Alberto Nepomuceno (1864-1920). A peça foi escrita em 1891, durante a estada do músico em Berlim onde se especializou em composição na Escola Superior de Música e regeu a Filarmônica de Berlim nas provas finais do conservatório. Uma música de temática nativista bem definida em “ritmo de lundu” como o próprio Nepomuceno definiu, por apresentar elementos da dança e do canto de origem africana introduzidos no Brasil. Defensor da luta pela nacionalização da música brasileira por meio do idioma, Nepomuceno também estudou em Roma, sua primeira parada na Europa.

Com apoio da Lei Federal de Incentivo à Cultura, o projeto Fortíssimo marca um retorno dos artistas do Theatro Municipal de São Paulo aos palcos, em apresentações transmitidas em tempo real, voltadas a todos os públicos, com acesso gratuito e irrestrito, uma vez que os concertos ficarão disponíveis no YouTube por tempo indeterminado. Ao todo serão cinco transmissões ao vivo, começando com os dois concertos do Quarteto de Cordas da Cidade e outros três da Orquestra Sinfônica Municipal em formação reduzida, nos dias 29, 30 e 31 de outubro, direto do palco do Theatro Municipal.