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Quarteto da Cidade e Hercules Gomes

Praça das Artes

23/09/2021 • 19h

[Praça das Artes – Sala do Conservatório]

Quarteto da Cidade e Hercules Gomes
Concerto Presencial, aberto ao público

Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo
Hercules Gomes, piano

HERCULES GOMES
Cantiga, Baião e Frevo para Quarteto de Cordas

PIXINGUINHA
Soluços

GILBERTO GIL
Ladeira da Preguiça

HERCULES GOMES
Allegro em 3
Platônica

AMÉLIA BRANDÃO NERY
Bordões ao Luar
Saracoteando
Sorriso de Bruno

HERCULES GOMES
Nação nº 3

Ingressos R$20 e R$10 (meia) – vendas em breve
Classificação Livre
Duração total 50 minutos

Em prevenção a transmissão do COVID-19, para assistir a este espetáculo, é necessário seguir os protocolos de segurança estipulados em nosso Manual do Espectador (acesse aqui).

Programa sujeito a alteração.

 

Nota de programa

O que distingue, na música brasileira, o repertório erudito do popular urbano? O modo de tocar, rigoroso e técnico no primeiro, descontraído e intuitivo no segundo? A linguagem musical, sublime e autorreferente num caso, despojada e funcional no outro? As formas de ensino e transmissão, institucionais e escritas na música erudita, informais e auditivas no popular? As origens étnicas, europeias e brancas de um lado, africanas e negras de outro? Desde o século XIX, quando a construção do Brasil como nação soberana fez aflorar todas as suas contradições, diversos exemplos vêm subvertendo essas divisões. Dos tangos de Ernesto Nazareth (1863-1934), exímio intérprete de Chopin, às Valsas de Esquina de Francisco Mignone (1897-1986), que reproduzem no piano sonoridades violonísticas de choros e serenatas, os limites entre popular e erudito foram sempre bastante porosos. 

Sem deixar de reconhecer as especificidades desses repertórios, o compositor e pianista Hercules Gomes vem revigorar essa porosidade. Nascido em Vitória, ES, em 1980, iniciou-se no teclado elétrico aos 13 anos, como autodidata. Logo se profissionalizou, atuando em bandas nas quais tocava de música sertaneja a pagode. Só travou contato com o piano acústico e a teoria musical no final dos anos 1990, quando iniciou o estudo formal em Conservatórios – primeiro no de Vila Velha, depois no Estadual do Espírito Santo. Em 2000, ingressou no curso de música popular da Unicamp, cujos programas assistenciais permitiram ao jovem de origem humilde cursar uma graduação. Ainda na faculdade, teve aulas com Silvio Baroni, seu iniciador no repertório erudito, destacando-se nesse universo como intérprete e compositor – posição raramente alcançada por um músico negro no Brasil. 

Seu encontro com o Quarteto da Cidade aproxima a música de concerto daquela das ruas, dos salões e das mídias. No programa, figuram não só composições suas, mas também arranjos que fez para obras de Pixinguinha (1897-1973), Amélia Brandão Nery (1897-1983) e Gilberto Gil (1942). Os dois primeiros destacaram-se no mundo do choro, gênero surgido da fusão das danças de salão europeias ao sotaque sincopado dos músicos brasileiros. Considerado um de seus sistematizadores, Pixinguinha incorporou à música escrita a complexidade rítmica dos rituais religiosos afro-brasileiros, que praticava como ogã nos terreiros do Rio de Janeiro. O resultado pode ser escutado em Soluços. Já Brandão Nery, mais conhecida como Tia Amélia, deu continuidade à tradição inaugurada por Ernesto Nazareth, que fundiu o idioma chorão à escrita pianística. Após curta carreira como solista erudita, a pernambucana passou a se dedicar à música brasileira, divulgando sua obra, principalmente, por meio de discos. Após anos esquecidos, seus choros Bordões ao Luar, Saracoteando e Sorriso de Bruno foram resgatados por Hercules Gomes, que os regravou no álbum Tia Amélia para sempre (2020). Finalmente, em Ladeira da preguiça, Gilberto Gil vem complexificar as fusões presentes nos dois primeiros compositores, ao incorporar elementos do jazz e ressignificar a temática da preguiça, por tanto tempo associada aos negros e músicos populares no Brasil.

Das quatro peças de Hercules Gomes que figuram no programa, duas são inéditas. Cantiga, baião e frevo para quarteto de cordas foi escrita especialmente para este concerto. Inspirada no Movimento Armorial, idealizado nos anos 1970 pelo escritor Ariano Suassuna, une a música erudita às tradições musicais do Nordeste. Já a Nação n° 3 integra a série iniciada com Nação Primeira e Nação n° 2, composições baseadas nas células rítmicas do maracatu nação. A elas se somam Platônica e Allegro em 3, gravadas no primeiro disco solo do compositor, Pianismo (2013), em que as influências da música brasileira, do jazz e da música de concerto já se mostravam bastante frutíferas.

por Virgínia de Almeida Bessa