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21 de outubro de 2021

Theatro Municipal de São Paulo apresenta A Voz Humana, ópera curta de Francis Poulenc

Sob regência de Alessandro Sangiorgi e direção cênica de André Heller-Lopes, a Orquestra Sinfônica Municipal de São Paulo sobe ao palco nos dias 22, 23 e 25 de outubro para dar vida à peça de Poulenc, além de interpretar ‘Ópera Aberta para Cantora e Halterofilista’, de Gilmar Mendes.

Foto: Stig de Lavor

Em mais um evento para celebrar o mês da ópera, o Theatro Municipal de São Paulo estreia no dia 22 de outubro, às 19h, “A Voz Humana”, ópera curta de Francis Poulenc. Baseada na peça homônima do francês Jean Cocteau, o espetáculo terá regência de Alessandro Sangiorgi e direção cênica de André Heller-Lopes. As apresentações seguem nos dias 23, às 17h, e 25, às 20h, dia exato em que é comemorado o Dia Mundial da Ópera. Os ingressos variam de R$ 10 a R$150 e estão à venda pela internet.

A obra teve sua estreia em São Paulo em 1987 e, no ano de 1999, o Municipal abrigou a versão, cantada em português, com tradução de Lauro Machado Coelho. Agora, pela segunda vez no palco da instituição, a montagem será apresentada com o libreto original em francês, com legenda ao vivo.

A peça de um ato narra a história de uma única personagem, em um quarto com um telefone. A mulher, anônima e referida como “Elle” (“ela” em francês), foi abandonada pelo amante e compartilha de seus sentimentos por meio de uma ligação em sua última conversa com seu affair. A cantora Rosana Lamosa interpreta a mulher enclausurada em suas próprias angústias e dores, no papel que é considerado por muitos um dos maiores “tour de force” do canto lírico feminino, já que estamos falando de uma ópera em que a artista divide o palco apenas com a orquestra, sem contar com o apoio de nenhum outro
solista ou de um grupo coral.

Foi através de uma linha cruzada que Cocteau dizia ter escutado a conversa que serviu de base para a criação de A Voz Humana. Porém, reza a lenda que o autor, na cena de despedida, tinha como protagonistas um rapaz aos prantos e um homem mais velho. Não é difícil imaginar que, na verdade, a conversa tenha acontecido entre o próprio Cocteau e seu amante até 1933, Jean Debordes. Talvez, para limitar o potencial escândalo, terminou imortalizado pelo escritor na voz de uma mulher.

Para o diretor cênico, André Heller-Lopes, “A Voz Humana é uma obra que flerta descaradamente com o universo gay – com muita honra. E isso por toda história que está por trás de sua criação em teatro ou ópera. Pode não ter a mensagem política francamente LGBTQIAP+ de uma ópera como Harvey Milk, de S. Wallace, mas é aparentada dos amores de Orestes e Phylade, na Iphigénie en Tauride, de Alban Berg, ou da mais recente Brokeback Mountain, de Charles Wuorinen. Assim como nessas óperas de 1779, 1937 e 2014, A Voz Humana, de 1959, é acima de tudo humana e profundamente assim; por isso mesmo, uma
ópera do nosso tempo.”

Além da obra de Poulenc, o espetáculo traz também no repertório a “Ópera Aberta para Cantora e Halterofilista”, de Gilberto Mendes – uma peça curiosa que une duas figuras distintas, num ambiente surpreendente – fora do palco – numa disputa por atenções e olhares. O programa é centrado na figura de uma cantora-atriz dirigida ao espaço cênico para dar vida e caráter à dupla face da máscara teatral: a tragédia e a comédia, personificadas em um melodrama realista (“A Voz Humana”, de Poulenc/Cocteau) e uma sátira surrealista (“Ópera Aberta”, de Gilberto Mendes). As duas peças põem à prova o instinto, a técnica, a flexibilidade psíquica e a fisicalidade da intérprete no papel ora de uma mulher destruída pelo outro, ora de uma mulher inflada em seu próprio ego.

Resumo da ópera
Concebida originalmente como peça de teatro, A Voz Humana foi encenada pela primeira vez em fevereiro de 1930 na Comédie-Française. No palco, apenas uma mulher jovem em seu quarto, que conversa por telefone com o amante que a abandonou e que, no dia seguinte, se casará com outra. Durante o diálogo – que para o espectador se apresenta como um monólogo -, constantemente entrecortado por interrupções na linha telefônica, linhas cruzadas e intrusões da telefonista, emerge uma ampla gama de sentimentos e de mudanças de humor da personagem. Com as emoções à flor da pele, a jovem fala vertiginosamente, sem muita coerência; rememora os dias felizes do passado, nega o
abandono, finge indiferença, agarra-se a qualquer fiapo de esperança de reconquistá-lo, mente, se angustia. Tudo é sofrimento e solidão.