Uma aventura com ópera e tecnologia digital

Em 2014, Björk e o diretor multimídia Andrew Thomas Huang ocuparam o MoMA PS1 de NY com uma instalação baseada no vídeoclipe Stonemilker, um trabalho gravado com a tecnologia de vídeo em 360º que permite ao espectador interagir com a imagem, em tempo real, podendo inclusive escolher seu ângulo de visão, sem precisar seguir a cantora em todos os seus movimentos durante os quase sete minutos da música. Para realizar essa obra, a artista e o diretor escolheram uma praia da Islândia, o país natal de Björk: um lugar onde a beleza natural se contrapõe com as confidências de uma figura fantasmagórica, deslocada, que tenta, literalmente, nos cercar por todos os lados com suas mensagens. Uma representação visual potente que interage com a música interpretada por uma orquestra de 30 instrumentistas.

No MoMA, esse trabalho foi projetado em um domo, ampliando ainda mais a experiência imersiva do vídeo produzido em 360º. Mas ele também está disponível no You Tube a qualquer um que tenha acesso à internet. Na plataforma de vídeos da Google, o navegante também pode explorar a cena em múltiplos ângulos, o que cria no espectador uma sensação de que é impossível fugir da figura de Björk que se multiplica por todos os lados. Uma experiência virtual única que procuramos reproduzir, à nossa maneira, no Theatro Municipal de São Paulo, por meio da maior parceria que uma instituição brasileira já firmou com o Google Cultural Institute. Há cerca de um ano e meio, iniciamos o programa Municipal Digital e por meio deles constituímos um núcleo de produção digital dentro do centenário teatro paulistano. Essa parceria faz parte de um projeto de alcance global que é lançado hoje em diversas partes do mundo e que envolve outras quatro instituições de artes performáticas: a Ópera de Paris (França), o Carnegie Hall (NY, EUA), a Royal Shakespeare Company (Londres, Inglaterra) e a Berliner Philharmoniker (Berlim, Alemanha). O Theatro é o representante do hemisfério sul no meio dessas instituições que possuem dentro do seu capital cultural a tradição e a qualidade de sua programação. O Google Cultural Institute até criou uma plataforma específica para abrigar todo o conteúdo que cada parceiro produziu. E, nela, se pode ver não somente um vídeo 360º de nossa ópera “Lohengrin”, de Richard Wagner, mas sim três! Cada um com sua perspectiva diferente, do mesmo trecho.

Quando vimos a exploração artística e tecnológica de Björk, passamos a pensar em como essa inovação poderia ser aplicada em diferentes áreas artísticas. Como ela mudaria a nossa percepção sobre o que é vídeo? Como criar narrativas que não seguem apenas o plano estático de uma única câmera, com um único enquadramento, mas sim uma gama de possibilidades de perspectiva? E como essa tecnologia influenciaria, por exemplo, vertentes artísticas mais tradicionais e formatadas, como a ópera? A parceria com a Google viabilizou as condições para que essa tecnologia de gravação em 360º fosse utilizada pela primeira vez em uma instituição do calibre do Theatro, num esforço conjunto com diferentes empresas nacionais e internacionais. O trabalho de gravação foi curto e intenso, precedido por dias de pré-produção baseados em um diálogo virtual que conectou a direção artística do Municipal à equipe de filmagem internacional. Não fosse a colaboração e a abertura de todos os envolvidos, dificilmente seria possível.

Uma das grandes questões que nos ocupou era como inserir câmeras dentro de uma montagem de uma ópera sem afetar o fluxo dos solistas, do coro, dos dançarinos, do elenco de apoio dentro do palco e não obstruir a visão do maestro que comanda a orquestra de dentro do fosso. A ópera escolhida para a empreitada foi “Lohengrin”, de Richard Wagner, em uma montagem contemporânea com influência da Arte Povera. O grande triunfo desta montagem para este tipo de gravação é que a cena escolhida acontece, literalmente, em todas as direções. Acima, uma estrutura como se fosse uma plateia para abrigar o coro masculino; abaixo, parte da orquestra e do coro joga sinuca; atrás, uma cortina de facas sobe e desce durante o ato; os solistas cantam e se apresentam na ponta do palco, enquanto o salvador Lohengrin emerge do poço da orquestra para salvar Elsa e seu condado. Uma cena, literalmente, em 360º.

Para conseguir gravar todas as nuances da ópera de forma que os espectadores pudessem ter uma outra percepção da montagem, penduramos uma das câmeras em uma vara de palco, que descia durante a apresentação, para que só começasse a gravação no meio da própria cena, sem precisarmos parar todo o elenco para captar os poucos mais de 20 minutos que a memória desse tipo de câmera suporta. As outras duas câmeras nós colocamos nas pontas do palco, junto a pequenos tripés, para causar o menor distúrbio possível. Assim, o público pode ver a solista Elsa cantando seus problemas ao seu cavaleiro salvador Lohengrin; ou, então, mudar a posição de visão para acompanhar o duelo entre Lohengrin e Friedrich para salvar Elsa de uma condenação; ou apreciar o coro masculino em cima de uma plateia suspensa no meio do palco.

As imagens do espetáculo chegam juntas a diversas fotoesferas que fizemos em três diferentes localidades do Theatro: o saguão de entrada (em que é possível apreciar o frontão e os mosaicos de nosso lobby), o palco (que mostra o quão grande e alto é toda a estrutura para compor uma ópera) e a cúpula (local usado para diversos ensaios, como o do Coro Lírico e também de óperas). O público, assim, finalmente, poderá explorar todos os cantos do Theatro e entender como é a construção de um mundo idealizado em séculos passados, que ilustram anseios épicos, dentro de uma estrutura secular como o Theatro Municipal de São Paulo. Se uma gravação normal, com plano fixo, não faz jus ao trabalho árduo que a direção artística, comandada por John Neschling, faz, esperamos que essa nova tecnologia 360º possa aproximar ainda mais o público dessa vertente artística vista como antiquada por muitos. Mas, como a história dá voltas, esperamos que esse pequeno passo seja o propulsor para um maior que fará com que a ópera volte a ser uma expressividade contemporânea, como o era anos atrás.

A parceria com a Google também garantiu a produção, dentro da plataforma do Google Cultural Institute, de quatro exposições online. A exposição “Ficha Técnica” conta a história da construção do Theatro por meio dos panfletos e programas produzidos de 1911 a 1940; “#DIVASEASTROS” relata os grandes nomes que passaram pelos nossos palcos, sejam eles de teatro, ópera, música ou dança; “Atrás da cortina vermelha” mostra os bastidores de quatro espetáculos no Theatro; e, finalmente, um áudio-guia ilustrado chamado “Municipal tim-tim por tim-tim“.

A produção desse vídeo 360º e todo esse conteúdo interligado é, até agora, a nossa aventura mais ousada de experimentações artísticas digitais. Nos últimos meses, temos explorado a associação das artes perfomáticas com a cultura digital, como quando fizemos a primeira transmissão de uma ópera brasileira para salas de cinema, numa parceria pioneira com a Cinelive e a Casablanca. Acreditamos que esse é um caminho essencial para, cada vez mais, aproximar o público de produções musicais de altíssima qualidade. O próximo passo é a constituição definitiva do Municipal Lab, o primeiro laboratório de arte e cultura digital voltado à produção de interações palco-tela. Nos vemos em breve! E, como diria o saudoso e lendário Paulo Autran em sua coluna de rádio, “vamos ao Theatro!”.

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